Cana-de-açúcar: o impacto do pico da safra e da oferta global

Entenda como o pico da colheita da cana-de-açúcar no Centro-Sul e os riscos climáticos globais influenciam os preços e o mercado.

Hedgepoint Global Markets
Sep 8, 2026, 3:02:36 PM

 

O mercado global de açúcar passa por um período de reajuste motivado pela entrada do pico da colheita da cana-de-açúcar no Centro-Sul do Brasil. Enquanto a oferta física brasileira atua como o principal amortecedor de liquidez global, adversidades climáticas e perdas de produtividade no Hemisfério Norte ajustaram o excedente global para 3,0 milhões de toneladas no cenário base para o ciclo 26/27, podendo recuar para 2,5 milhões de toneladas caso o mix açucareiro diminua ou para a faixa de 1,5 milhão a 2,0 milhões de toneladas caso a Índia precise importar. Essa diminuição do excedente comercial sustenta as cotações internacionais no contrato NY11 em patamares superiores aos do início da temporada,porém ainda inferiores a anos em que tanto o Hemisfério Norte, quanto o Brasil sofrem com adversidades climáticas.

 

Neste artigo, analisamos:



Panorama global e a pressão sobre a oferta no Hemisfério Norte

Quebras de safra e os efeitos do El Niño na Ásia e Europa

Os riscos climáticos associados ao fortalecimento do El Niño limitam a disponibilidade exportável de importantes origens do Hemisfério Norte. Na Índia, a produção estimada em 27,3 milhões de toneladas reflete um avanço irregular das monções, eliminando o saldo exportável e levando o governo a adotar medidas para garantir o suprimento doméstico como restrição aos estoques de distribuidoras, redução do mandato de etanol e aprovação de cotas de importação.Na Tailândia, a seca induzida pelo fenômeno comprometeu os canaviais, reduzindo a moagem para cerca de 88 milhões de toneladas de cana (aproximadamente 9,5 milhões de toneladas de açúcar) e cortando as exportações para 6 milhões a 6,5 milhões de toneladas, um recuo de 1 milhão de toneladas em relação às estimativas anteriores e cerca de 2Mt a menos que o projetado para a safra 25/26.

 

Na Europa e no Reino Unido, temperaturas elevadas, estiagem e a incidência de pragas reduziram o rendimento das lavouras de beterraba, situando a produção de açúcar em cerca de 14 milhões de toneladas e elevando a necessidade de importação para recomposição de estoques. Adicionalmente, reduções de oferta são observadas no México (4,6 milhões de toneladas, queda de 15%), Guatemala (-10%), El Salvador (-10,2%) e Ucrânia (1,4 milhão de toneladas, retração de 17%).

 

O papel da China no amortecimento das altas

Em contrapartida, a China atua como um fator moderadamente baixista, contendo altas nas bolsas internacionais. Com uma produção doméstica estimada em 13 milhões de toneladas e estoques em níveis confortáveis, o país deve reduzir suas importações para cerca de 4 milhões de toneladas, abaixo dos patamares históricos, em função da menor atratividade das margens de arbitragem. Essa postura compradora mais cautelosa atenua parte do déficit global.

 

O pico da colheita da cana-de-açúcar no Centro-Sul brasileiro

Moagem, rendimento industrial (ATR) e viés açucareiro

A estimativa para a região situa-se em 635,5 milhões de toneladas de cana, com rendimento industrial (ATR) favorável abaixo da média em 138,0 kg/t. No entanto, acelerar o ritmo de moagem não garante um avanço proporcional na oferta de açúcar, já que o volume final continua atrelado ao rendimento do ATR e à paridade de preços que define o mix.

Em virtude das margens mais atrativas do açúcar frente ao etanol, as usinas mantêm a prioridade para o adoçante, projetando um mix açucareiro próximo a 47,7% e uma produção de 39,9 milhões de toneladas de açúcar. Do ponto de vista climático, a ocorrência do El Niño no Sul de São Paulo e no Mato Grosso do Sul pode provocar precipitações pontuais que atrasam o ritmo de moagem, mas que beneficiam o desenvolvimento vegetativo dos canaviais para a sequência do ciclo.

 

Clima e perspectivas para o Norte-Nordeste (NNE)

No Norte-Nordeste, o El Niño manifesta-se através de temperaturas mais altas e menor umidade. Esse cenário favorece a concentração de ATR no curto prazo, elevando o rendimento da safra atual. Por outro lado, caso o ambiente seco se estenda até o encerramento do ano, a falta de umidade pode prejudicar o desenvolvimento das soqueiras para o ciclo seguinte.

 

Arbitragem com energia e o balanço do etanol

A precificação da cana-de-açúcar relaciona-se diretamente com a paridade entre o adoçante e o etanol. Atualmente, a paridade aponta forte vantagem para o açúcar, justificando a prioridade das usinas em maximizar sua produção. Contudo, os preços domésticos se ajustaram a um patamar que voltou a induzir uma maior demanda por etanol hidratado no Centro-Sul, movimento que consome parte da matéria-prima e funciona como um contrapeso ao mix açucareiro.

Além da dinâmica interna nas bombas, o cenário macroeconômico global adiciona volatilidade a essa equação. O conflito entre EUA e Irã ameaça o abastecimento de energia e gera incertezas sobre os fluxos comerciais do açúcar branco, mantendo o mercado em alerta para possíveis respingos na competitividade internacional dos biocombustíveis e, consequentemente, na paridade das usinas brasileiras.

 

Gestão de riscos: macroeconomia, geopolítica e fluxos comerciais

Com o arrefecimento dos antigos gargalos logísticos e da competição estrutural por escoamento com a safra de grãos, a gestão de riscos no mercado de açúcar passa a ser ditada por variáveis globais.

Enquanto a robusta disponibilidade física do Brasil limita o potencial de grandes altas nas cotações em Nova York, a atenção dos comercializadores se divide entre o macro e o clima. Do lado baixista, as altas taxas de juros globais, moedas enfraquecidas e o risco de desaceleração da economia pesam sobre as cotações. Em contrapartida, as tensões geopolíticas (com o risco de alta nos custos de energia) e a consolidação do El Niño sobre as safras do Hemisfério Norte atuam como fortes vetores de alta, exigindo um monitoramento contínuo para a proteção eficiente das margens.

 

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