
Fenômeno tende a favorecer lavouras no Sul do Brasil e na Argentina, enquanto regiões produtoras importantes de soja e milho podem enfrentar menor disponibilidade de chuvas, aponta análise da Hedgepoint Global Markets
O El Niño está novamente no radar dos mercados agrícolas globais. Embora seja um fenômeno climático recorrente, seus impactos variam de acordo com a intensidade, duração e momento em que se desenvolve, tornando o monitoramento das condições meteorológicas uma ferramenta essencial para produtores, exportadores, indústrias e demais participantes das cadeias de commodities.
As projeções mais recentes indicam a possibilidade de um El Niño ativo nos próximos meses, com potencial de se estender até o verão do Hemisfério Sul. Os modelos climáticos apontam, neste momento, para um evento de intensidade moderada, mas que pode ganhar força ao longo do tempo, influenciando padrões de temperatura e precipitação em importantes regiões produtoras ao redor do mundo.
Diante desse cenário, compreender como o fenômeno pode afetar diferentes culturas e mercados torna-se fundamental para a tomada de decisões. De grãos como soja, milho e trigo a commodities tropicais como café, açúcar, cacau e óleo de palma, os efeitos do El Niño podem alterar perspectivas de produção, disponibilidade global e, consequentemente, a dinâmica dos preços. Neste artigo, analisamos os principais pontos de atenção para cada mercado e as regiões que devem permanecer no foco dos agentes ao longo dos próximos meses.
A confirmação de um novo ciclo de El Niño para o segundo semestre de 2026 volta a colocar o clima no centro das atenções dos mercados agrícolas. Segundo análise da Hedgepoint Global Markets, os principais impactos para soja, milho e trigo devem se concentrar na América do Sul, com efeitos distintos entre as regiões produtoras.
Historicamente, episódios de El Niño moderado a forte iniciados no segundo semestre do ano costumam gerar impactos agrícolas relevantes entre o final do mesmo ano e o primeiro semestre seguinte, especialmente no Hemisfério Sul. Tais períodos coincidem com o plantio, desenvolvimento e colheita das safras de soja e milho dos principais países produtores da América do Sul.
Na metade sul da América do Sul, o fenômeno tem como característica o aumento das chuvas durante a primavera e o verão, o que costuma ser benéfico para o desenvolvimento das lavouras de soja e milho no Sul do Brasil, Paraguai, Uruguai e Argentina. Por outro lado, a metade norte da América do Sul pode enfrentar chuvas abaixo da média, com destaque para as regiões Norte, Nordeste e parte do Centro-Oeste do Brasil.


Sul da América do Sul pode se beneficiar do fenômeno
De acordo com a Hedgepoint, o aumento das chuvas durante a primavera e o verão costuma favorecer o desenvolvimento das lavouras de soja e milho no Sul do Brasil, Paraguai, Uruguai e Argentina. Em alguns episódios anteriores, a incidência do El Niño culminou com grandes produtividades e produções nessas regiões, especialmente no Sul do Brasil e na Argentina, como as registradas na temporada 18/19.
Nesse sentido, vale destacar a importância da produção de soja nos estados brasileiros do Paraná e do Rio Grande do Sul, que, em anos com clima favorável, costumam ocupar a 2ª e a 3ª posições entre os maiores estados produtores do Brasil, respectivamente. Além disso, o Rio Grande do Sul é o maior produtor de milho de verão do Brasil.


Centro-Norte brasileiro concentra os principais riscos
Se parte da América do Sul tende a se beneficiar de maior regularidade de chuvas, o mesmo não ocorre na metade norte do continente. O fenômeno costuma trazer chuvas abaixo da média durante a primavera e o verão, com destaque para as regiões Norte, Nordeste e parte do Centro-Oeste do Brasil.
Diante disso, o El Niño traz riscos produtivos para grandes estados produtores de soja do Brasil, como Mato Grosso, Goiás e Bahia, com alguns episódios anteriores apontando para perdas relevantes de produção. Um dos exemplos mais recentes foi a temporada 23/24, quando a baixa umidade trouxe grandes perdas para a safra brasileira, especialmente pelos problemas registrados no Mato Grosso, maior estado produtor do país.
Diante dos efeitos opostos nas metades sul e norte da América do Sul, com possíveis aumentos de produtividade no Sul e reduções no Norte, o fenômeno El Niño não deve ser necessariamente vinculado a perdas amplas no continente como um todo. Ainda assim, a relevância das produções de estados do Centro-Norte brasileiro pode ter um peso maior na consolidação das safras brasileiras de soja e milho.
Impactos podem se estender ao milho segunda safra
No caso do milho, além dos possíveis impactos na safra de verão, os efeitos iniciais para a safra de inverno, segunda safra no Brasil, derivam de eventuais atrasos no plantio da soja provocados pela baixa umidade. Esses atrasos podem levar a um deslocamento no plantio da segunda safra no primeiro trimestre do ano seguinte.
Esse movimento eleva os riscos para o milho segunda safra, pois amplia a possibilidade de que o período de desenvolvimento do cereal encontre momentos de umidade mais baixa ao longo do segundo trimestre, durante o outono e o inverno.


Trigo argentino também pode ser favorecido
Além de soja e milho, o trigo argentino aparece entre as culturas que historicamente costumam responder de forma positiva aos eventos de El Niño.
A Argentina figura entre os países que tradicionalmente se beneficiam do fenômeno, uma vez que o aumento da frequência e da regularidade das chuvas durante o ciclo da cultura tende a melhorar as condições de estabelecimento, desenvolvimento e enchimento de grãos, elevando o potencial de produtividade.
Após períodos de seca associados à neutralidade climática ou ao La Niña, o fenômeno El Niño frequentemente permite uma recuperação significativa da produção argentina e do excedente exportável. Dessa forma, em anos de El Niño, é comum que a Argentina amplie sua participação no comércio internacional, especialmente nos mercados da América do Sul e do Norte da África.

Mercado volta atenções para Brasil e Argentina
Quando falamos de Hemisfério Norte, o fenômeno El Niño não costuma trazer impactos relevantes para as produções de soja e milho, não havendo histórico de alterações importantes nos regimes de chuvas ou temperaturas em grandes países produtores. Dessa forma, anos de El Niño direcionam as atenções dos mercados de soja e milho para as safras do Hemisfério Sul, com destaque para Brasil e Argentina.
Para o trigo, o efeito sobre o mercado global depende do equilíbrio entre as perdas potenciais na Austrália e os ganhos observados nas Américas. No recorte latino-americano, a Argentina se destaca entre as origens que podem ser favorecidas por chuvas mais regulares durante o ciclo da cultura.
“Os impactos esperados do El Niño nas safras de soja e milho concentram-se principalmente no Hemisfério Sul. A tendência de chuvas acima da média na primavera/verão na metade sul da América do Sul tende a ser favorável para as safras no Sul do Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. Por outro lado, a tendência de chuvas abaixo da média na metade norte da América do Sul pode trazer problemas para o plantio e desenvolvimento das safras no Centro-Norte do Brasil, incluindo a segunda safra de milho no Brasil”, destaca Luiz Fernando Gutierrez Roque, Coordenador de Inteligência de Mercado na Hedgepoint.
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O estudo reúne avaliações climáticas, perspectivas de produção e os principais fatores que podem influenciar os preços e a volatilidade dos mercados, ajudando empresas a se prepararem para um cenário de maior incerteza.

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