O El Niño está novamente no radar dos mercados agrícolas globais. Embora seja um fenômeno climático recorrente, seus impactos variam de acordo com a intensidade, duração e momento em que se desenvolve, tornando o monitoramento das condições meteorológicas uma ferramenta essencial para produtores, exportadores, indústrias e demais participantes das cadeias de commodities.
As projeções mais recentes indicam a possibilidade de um El Niño ativo nos próximos meses, com potencial de se estender até o verão do Hemisfério Sul. Os modelos climáticos apontam, neste momento, para um evento de intensidade moderada, mas que pode ganhar força ao longo do tempo, influenciando padrões de temperatura e precipitação em importantes regiões produtoras ao redor do mundo.
Diante desse cenário, compreender como o fenômeno pode afetar diferentes culturas e mercados torna-se fundamental para a tomada de decisões. De grãos como soja, milho e trigo a commodities tropicais como café, açúcar, cacau e óleo de palma, os efeitos do El Niño podem alterar perspectivas de produção, disponibilidade global e, consequentemente, a dinâmica dos preços. Neste artigo, analisamos os principais pontos de atenção para cada mercado e as regiões que devem permanecer no foco dos agentes ao longo dos próximos meses.
Após um período marcado pela recuperação da oferta global de açúcar, o mercado começa a voltar sua atenção para os possíveis impactos de um novo episódio de El Niño sobre a produção mundial da commodity.
Nos últimos meses, os preços do açúcar foram pressionados pelo aumento da disponibilidade global, sustentado pela recuperação parcial da produção em importantes origens do Hemisfério Norte, como Índia, Tailândia e América Central, além do forte desempenho da safra brasileira. Como resultado, o mercado passou a trabalhar com uma perspectiva mais confortável de oferta e com sinais de superávit nos fluxos globais de comércio.
Agora, porém, a evolução das condições climáticas volta ao centro das atenções. Segundo análise da Hedgepoint Global Markets, embora o Brasil deva permanecer relativamente resiliente aos efeitos do fenômeno, importantes produtores do Hemisfério Norte podem enfrentar condições mais secas nos próximos meses, elevando os riscos para produtividade e disponibilidade de açúcar no mercado internacional na safra 26/27 (out-set).
No Brasil, a análise está concentrada na safra 2026/27 do Centro-Sul, principal região produtora de cana-de-açúcar do país.
Em contraste com outros importantes produtores globais, o Brasil tende a apresentar maior resiliência diante do cenário climático projetado. Além de a cana já ter passado pela principal janela de desenvolvimento para a safra corrente, o evento climático tende a afetar de maneira mais intensa a região Sul do país, que não produz cana de maneira relevante.
Apesar de possivelmente poder atrasar o ritmo de moagem, caso o clima mais chuvoso se alastre para uma região mais ampla, a expectativa segue positiva para o setor sucroenergético do Centro-Sul. Segundo a Hedgepoint, a safra deve superar 600 milhões de toneladas pela quarta temporada consecutiva, com produção estimada em cerca de 635 milhões de toneladas. O volume reforça a posição do país como principal fornecedor global de açúcar e amplia sua importância para o equilíbrio do mercado internacional.
Essa condição ganha ainda mais relevância caso ocorram perdas produtivas em concorrentes importantes do Hemisfério Norte.
Embora a atenção do mercado esteja voltada para a safra atualmente em desenvolvimento, os participantes do setor também acompanham os possíveis reflexos do fenômeno sobre os ciclos seguintes.
Caso o El Niño se fortaleça ao longo do segundo semestre de 2026 e permaneça ativo durante parte de 2027, seus impactos poderão se estender para além da atual temporada, influenciando decisões de mercado e expectativas de oferta para os próximos ciclos produtivos. Maiores chuvas na região Sul do Centro-Sul pode ser positiva para o desenvolvimento de 27/28, apesar de ainda ser muito cedo para afirmar qualquer tendência.
Enquanto o Brasil tende a atravessar o fenômeno com impactos mais limitados, a atenção do mercado se volta para importantes produtores do Hemisfério Norte.
Índia e Tailândia aparecem entre as regiões que historicamente podem ser afetadas por condições mais secas durante eventos de El Niño. A redução das chuvas e o aumento das temperaturas elevam os riscos de estresse hídrico para os canaviais, podendo comprometer tanto a produtividade quanto a disponibilidade de matéria-prima para a produção de açúcar já em sua safra 26/27, que se inicia em outubro de 2026.
Como ambos os países desempenham papel relevante no comércio internacional da commodity, eventuais perdas produtivas costumam ser rapidamente incorporadas às expectativas dos participantes do mercado.
Além da Ásia, a América Central figura entre as regiões monitoradas diante da evolução das projeções climáticas.
O fenômeno pode favorecer condições mais secas em países produtores da região, aumentando os riscos para o desenvolvimento da cana-de-açúcar e para os volumes disponíveis para exportação. Embora os impactos variem conforme a intensidade do evento e as características locais de cada safra, a região integra o grupo de origens que podem enfrentar desafios adicionais caso o El Niño se fortaleça nos próximos meses.
Os possíveis efeitos do El Niño sobre o mercado de açúcar precisam ser analisados em conjunto com os calendários produtivos dos principais países exportadores.
Como os períodos de plantio, desenvolvimento e colheita variam entre as diferentes origens, os impactos climáticos também tendem a ocorrer em momentos distintos. Por isso, o mercado acompanha simultaneamente a evolução da safra 2026/27 em importantes produtores globais e os possíveis reflexos sobre os ciclos seguintes, dependendo da duração do fenômeno climático.
Embora o cenário atual seja marcado por uma oferta global mais confortável, os participantes do mercado já começam a avaliar os possíveis efeitos do fenômeno sobre a próxima temporada.
Historicamente, episódios de El Niño alteram os padrões de precipitação em diversas regiões produtoras, influenciando o desenvolvimento da cana-de-açúcar e os níveis de produtividade agrícola. Por isso, a intensidade e a duração do evento continuarão sendo fatores-chave para a formação das expectativas do setor.
Caso o fenômeno se intensifique ao longo do segundo semestre de 2026 e permaneça ativo até 2027, a participação brasileira poderá se tornar ainda mais importante para o equilíbrio global do mercado.
“A combinação entre condições relativamente mais favoráveis no Brasil e potenciais dificuldades produtivas em outras origens reforça a necessidade de monitoramento constante das condições climáticas e de seus reflexos sobre a oferta global”, destaca Livea Coda, Coordenadora de Inteligência de Mercado da Hedgepoint Global Markets.
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O estudo reúne avaliações climáticas, perspectivas de produção e os principais fatores que podem influenciar os preços e a volatilidade dos mercados, ajudando empresas a se prepararem para um cenário de maior incerteza.