
Produção elevada no Brasil e recuperação de grandes produtores mantém pressão baixista sobre os preços, apesar de volatilidade política e climática
Todo ano, a equipe de Inteligência de Mercado da Hedgepoint Global Markets publica relatórios detalhados sobre as perspectivas globais das principais commodities agrícolas, analisando fatores como oferta, demanda, clima, comércio internacional e dinâmica de preços. Ao longo do blog, você já pode acompanhar conteúdos dedicados a diferentes mercados — e, neste especial de 2026, reunimos os principais insights para café, açúcar, grãos e cacau, destacando tendências que devem influenciar esses setores nos próximos meses.
Os relatórios foram elaborados por especialistas da Hedgepoint que acompanham diariamente a evolução desses mercados no cenário global. No mercado de açúcar e etanol, o report é liderado por Lívea Coda, coordenadora de Inteligência de Mercado da Hedgepoint, que analisa os fluxos globais de comércio, o balanço entre açúcar e etanol e os efeitos das decisões energéticas sobre os preços internacionais.
Boa leitura!
De acordo com análises da Hedgepoint Global Markets, no mercado de açúcar, espera-se que o equilíbrio global de outubro a setembro de 2025/26 permaneça em excedente, sustentado pela forte disponibilidade do Brasil e pelas recuperações na Índia, Tailândia e México. A demanda global, por sua vez, segue crescendo em ritmo insuficiente para absorver o aumento da produção — especialmente diante de incertezas econômicas persistentes – gerando uma pressão sobre os preços do açúcar que já atingiram níveis não vistos em, pelo menos, 5 anos.
O mecanismo mais econômico para absorver o excedente esperado seria a expansão da demanda por etanol no mercado interno brasileiro — observe que isso não significa uma mudança em nosso crescimento esperado para o Ciclo Otto (2,5% em CS), mas uma alteração na participação da demanda por combustível. Para restaurar a competitividade do etanol hidratado nos postos de gasolina na maioria dos estados, estimamos que os preços ex-mill precisariam cair dos atuais R$ 3,0/litro para aproximadamente R$ 2,3/litro (sem impostos).
Nesse cenário, o preço mínimo implícito para o açúcar seria próximo a 13,5 c/lb. Em um ano de excedente, os preços devem gravitar em torno desse nível, à medida que o mercado tenta reequilibrar o excesso de disponibilidade de açúcar por meio do consumo de etanol.
Carlos Murilo Barros de Mello, Head de Açúcar, aponta sinais de preço mais construtivos no curto prazo, como os reflexos da guerra no oriente médio impactando o preço do petróleo e indiretamente o preço do etanol, uma possível redução de produção e exportação indiana, expectativa de um início de safra mais alcooleiro no CS Brasil e a expectativa de um eventual El Niño a partir de Agosto.
Contudo, uma eventual subida nos preços do açúcar representaria uma boa oportunidade de venda para os produtores, visto que os efeitos de uma guerra historicamente costumam ser de curto prazo, a subida dos preços está atraindo forte reação de venda dos produtores que estão menos fixados em relação ao npivel histórico, além dos fundamentos permanecerem de superávit no trade flow global.
Os fundamentos do Centro-Sul brasileiro se fortaleceram ainda mais. Melhora nos índices de vegetação e desempenho da moagem elevaram a estimativa de disponibilidade de cana para 610 Mt em 2025/26, acima das 605 Mt anteriores. Mesmo com um mix menor — agora em 50,6% — e ATR de 137,8 kg/t, a produção de açúcar está projetada em 40,5 Mt, mantendo as exportações elevadas em aproximadamente 31,65 Mt.
Para a analista, o Brasil continua ancorando a oferta global. A consistência da produção no Centro-Sul garante um volume expressivo de exportações, reforçando o caráter superavitário do mercado mundial. Para a safra 2026/27, estimativas preliminares indicam moagem próxima de 630 Mt, apoiada por melhora no TCH após chuvas recentes. Contudo, o mix açúcar — estimado em 48,6% — não é suficiente para eliminar a sobre oferta global, devido às limitações comerciais, pré-vendas e dinâmicas de demanda por combustível no país que impedem que as usinas atinjam o mix de equilíbrio estimado em 46.2%.
O etanol voltou a oferecer melhor retorno que o açúcar, inclusive no estado de São Paulo. Porém, as curvas de futuro sugerem incerteza para os preços ao longo da temporada. Com o ciclo Otto projetando crescimento de 2,5% e a produção de etanol de milho estimada em 11 bilhões de litros, os estoques devem aumentar caso o mix açúcar permaneça próximo de 48,6%. Para evitar excedentes, sejam eles no mercado do biocombustível ou do adoçante, estima-se que o preço na usina para o hidratado em São Paulo deva-se corrigir para próximo de 2.3 reais por litro, equivalente a um açúcar de 13.5 c/lb. Dessa forma, gera-se demanda por combustível para consumir, mesmo que parcialmente, o excedente de produto.
A produção de açúcar da região Norte-Nordeste para 2025/26 foi revisada para 3,6 Mt, em linha com menor disponibilidade de cana. Para 2026/27, a projeção é de leve recuperação, chegando a 3,8 Mt, impulsionada por chuvas adequadas até o momento. A região passa por uma expansão acelerada na produção de etanol de milho, que deve atingir 1,5 a 1,7 bilhão de litros na próxima safra.
Após uma produção bruta de cerca de 30 Mt em 2024/25 e líquida de 26.1Mt, a Índia iniciou 2025/26 com moagem crescente e produtividade superior. A produção líquida está projetada em 31,1 Mt, com desvio de 3,7 Mt para etanol.
As exportações seguem limitadas pela falta de competitividade no mercado global: a paridade de exportação está próxima de 18,5 c/lb para o açúcar bruto, e cerca de US$ 450/t para o açúcar branco — níveis pouco atrativos para novos embarques.
“A recuperação indiana reforça o volume global disponível, mas como o país enfrenta preços internacionais pouco favoráveis, parte desse açúcar permanece internamente, amenizando algum impacto imediato nas cotações externas. Porém, devemos lembrar que 1.5Mt de exportações já foram aprovadas pelo governo e a Índia já exportou no passado com certo prejuízo.”, diz.
Carlos Murilo Barros de Mello, Head de Açúcar, aponta uma possível redução no final da safra indiana, que poderia retirar 1 milhão de toneladas de produção e 500 mil toneladas da exportação.
Qualquer aumento no preço mínimo de venda (MSP) fortaleceria ainda mais os preços internos e restringiria os fluxos de exportação nas condições globais atuais.
Embora as chuvas tenham inicialmente sustentado expectativas de recuperação, doenças como a folha branca reduziram o potencial da safra. A moagem foi revisada para 97 Mt, em 25/26, e a produção de açúcar deve ficar em 10,6 Mt, acima do ano anterior, mas ainda abaixo do padrão histórico do país.
A produção conjunta deve recuar para 15,8 Mt em 2025/26, comparada aos 16,5 Mt do ciclo anterior. As importações devem subir para 1,5 Mt, enquanto exportações caem para aproximadamente 1,0 Mt.
Com o acordo UE–Mercosul prevendo cota tarifária zero de 180 kt para o Brasil e 10 kt para o Paraguai, a competição deve aumentar e pressionar ainda mais o setor açucareiro europeu.

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