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Safra de cana 2026/27: A dinâmica do mix de produção frente ao cenário energético global

Escrito por Hedgepoint Global Markets | Jul 27, 2026 8:15:30 PM

O mercado global de açúcar entrou no segundo semestre de 2026 com uma dinâmica diferente da observada no início do ano. Embora a oferta brasileira continue robusta, a deterioração das perspectivas para a safra 2026/27 do Hemisfério Norte reduziu significativamente o superávit esperado para o mercado global, tornando o equilíbrio entre oferta e demanda menos confortável. Nesse contexto, o pico do processamento e da moagem de cana-de-açúcar no Centro-Sul do Brasil ganha ainda mais importância para o abastecimento mundial.

 

Ao mesmo tempo, a definição do mix industrial entre açúcar e etanol deixou de ser uma decisão exclusivamente agrícola para refletir um conjunto de fatores econômicos e geopolíticos. A sustentação dos preços do petróleo Brent, impulsionada pelas tensões no Oriente Médio e pelos riscos sobre o fluxo global de energia, influencia diretamente a competitividade dos combustíveis no mercado brasileiro.

 

Paralelamente, a persistência da inflação global, a manutenção de juros elevados nas principais economias e a volatilidade cambial também afetam as decisões comerciais das usinas e dos participantes do mercado.

 

Confira alguns temas centrais dessa análise:

O pico da safra no Centro-Sul: desempenho e o fator climático

 

Apesar das chuvas que atrasaram parte da moagem, a perspectiva para a safra 2026/27 do Centro-Sul permanece praticamente inalterada. A projeção segue em 635 milhões de toneladas de cana, com ATR ligeiramente superior ao esperado inicialmente e um mix açucareiro próximo de 47,3%. Caso a relação entre os preços do açúcar e do etanol continue favorecendo o adoçante, ainda existe potencial para ampliação desse mix ao longo da temporada.

 

O comportamento do El Niño continua sendo monitorado, mas seu impacto sobre a região Centro-Sul tende a ser diferente do observado em outras origens produtoras. Historicamente, o fenômeno apresenta baixa correlação com as principais áreas produtoras de cana do Brasil. Em eventos de maior intensidade, o aumento das chuvas no Sul de São Paulo e no Mato Grosso do Sul pode atrasar parte da colheita, mas também favorecer o desenvolvimento da cana no final da safra, contribuindo para a produtividade da região.

 

Já no Norte e Nordeste, o cenário exige maior atenção, uma vez que o El Niño costuma provocar condições mais secas e temperaturas elevadas, podendo influenciar o desenvolvimento das próximas safras.

 

No cenário internacional, as preocupações climáticas se concentram principalmente no Hemisfério Norte. Na Índia, a produção está estimada em aproximadamente 27,3 milhões de toneladas, abaixo da safra anterior, e o país não deverá exportar açúcar em 2026/27. Caso as condições climáticas se deteriorem, existe inclusive a possibilidade de importações, reduzindo ainda mais a disponibilidade global.

 

Na Tailândia, a expectativa de ocorrência de um El Niño mais intenso levou à redução da projeção de moagem para cerca de 88 milhões de toneladas de cana, com exportações estimadas entre 6 e 6,5 milhões de toneladas.

 

A Europa também enfrenta desafios climáticos, com redução da produtividade da beterraba e necessidade crescente de importações, enquanto a China mantém uma postura mais cautelosa, ampliando sua produção doméstica e reduzindo sua dependência das compras externas.

 

Esse conjunto de fatores levou a Hedgepoint a revisar significativamente as perspectivas para o balanço global. O superávit esperado foi reduzido para aproximadamente 1,8 a 2 milhões de toneladas, frente às estimativas próximas de 4 milhões de toneladas consideradas anteriormente.

 

Embora o mercado continue superavitário, o espaço entre oferta e demanda tornou-se menor, sustentando uma perspectiva de preços mais firme, especialmente para os contratos de 2027.

 

Transmissão energética: petróleo alto e a competitividade do etanol

 

A distribuição de incentivos econômicos no setor sucroenergético continua sendo fortemente influenciada pelo mercado internacional de energia. A sustentação dos preços do petróleo Brent pressiona os preços da gasolina, aumentando a competitividade econômica do etanol no mercado doméstico. Com margens mais atrativas para o biocombustível, cresce o incentivo econômico para direcionar parte da cana à produção de etanol.

 

Além disso, políticas públicas relacionadas ao mercado de combustíveis também podem alterar esse equilíbrio. A possível adoção da mistura E32 na gasolina tende a ampliar a demanda por etanol anidro, reduzindo o excedente de açúcar e elevando o piso esperado para os preços internacionais. Em contrapartida, eventuais subsídios à gasolina podem reduzir a competitividade do etanol, favorecendo uma maior produção de açúcar pelas usinas.

 

A resposta do consumo nos postos e a paridade

 

A velocidade com que o consumo de etanol responde nas bombas depende essencialmente da relação de preços entre o biocombustível e a gasolina. Embora o consumidor brasileiro seja altamente sensível a essa paridade, o ritmo de ajuste da demanda também sofre influência de fatores estruturais, como políticas tributárias estaduais, eficiência logística e nível de renda da população. Esses elementos determinam a velocidade de escoamento do produto e, consequentemente, influenciam as decisões das usinas sobre o direcionamento da matéria-prima.

 

Trava comercial e o limite do mix produtivo

 

Apesar dos incentivos proporcionados pelo mercado de energia, a flexibilidade para alterar significativamente o mix industrial continua limitada por fatores comerciais. Uma parcela relevante da produção futura de açúcar já foi comprometida por meio de operações de hedge em bolsas internacionais e contratos de exportação de longo prazo.

 

Essas travas reduzem a liberdade das usinas para redirecionar rapidamente a cana para o etanol, funcionando como um importante fator de sustentação para os preços do açúcar bruto. Ao mesmo tempo, a redução da disponibilidade exportável do Hemisfério Norte reforça o papel do Brasil como principal fornecedor de equilíbrio do mercado global, ampliando a importância das decisões de comercialização ao longo da safra.

 

Gestão de risco: a preservação da margem operacional no ciclo de mercado

 

Gerenciar os resultados no setor sucroenergético exige olhar para o negócio de forma unificada, já que o preço do açúcar em Nova York, o valor do etanol nas distribuidoras e o câmbio se movem juntos. Quando o clima ou o mercado de petróleo oscilam, as margens de lucro mudam rapidamente, tornando as travas combinadas a única garantia de previsibilidade para o caixa das usinas e compradores.

 

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