Os mercados globais de milho e soja entram em um novo ciclo marcado por maior volatilidade, impulsionado por fatores macroeconômicos, climáticos e estruturais de demanda. A combinação entre tensões geopolíticas, mudanças no regime climático e a expansão dos biocombustíveis vem alterando a dinâmica tradicional de formação de preços, elevando a sensibilidade dos mercados.
De acordo com análise de Luiz Fernando G. Roque, coordenador de Inteligência de Mercado de Grãos & Oleaginosas da Hedgepoint Global Markets, o cenário atual reflete um equilíbrio instável entre grande oferta no curto prazo e fortalecimento estrutural da demanda.
O ambiente macroeconômico global passou por mudanças relevantes, com retorno da volatilidade associado ao conflito envolvendo Estados Unidos e Irã. Ainda que os níveis não sejam extremos, há ruptura em relação ao período recente de menor risco.
A desvalorização estrutural do dólar, combinada com inflação persistente nos Estados Unidos e pressão sobre os yields dos Treasuries, favorece o fluxo de capitais para economias emergentes, como o Brasil, que se beneficia de diferencial elevado de juros reais e valorização cambial.
Ao mesmo tempo, há um choque inflacionário relevante nos custos de produção agrícola, com alta de energia, fretes internacionais e fertilizantes, especialmente ureia. Esse movimento amplia a incerteza sobre decisões de investimento e área plantada.
Outro vetor central é o fortalecimento dos biocombustíveis, com impacto direto sobre a demanda por milho e soja, especialmente via etanol e biodiesel.
O cenário climático global entra em fase de transição, com saída do La Niña, passagem por neutralidade e alta probabilidade de entrada antecipada de um El Niño, possivelmente com intensidade forte.
Na América do Sul, os impactos podem seguir o padrão histórico:
No curto prazo, o foco recai sobre a safrinha brasileira, especialmente diante da irregularidade das chuvas entre abril e maio. A combinação entre atraso no plantio e possível El Niño eleva significativamente a incerteza para a safra de milho atual, embora a principal preocupação recaia sobre a próxima safra de verão que será plantada a partir de setembro (milho e soja).
Estados Unidos: exportações sustentam preços
A produção recorde recente elevou os estoques, mas a demanda externa extremamente forte, com potencial recorde de exportações, tem sido o principal fator de sustentação dos preços.
A relação atual entre os preços de soja e milho para os produtores norte-americanos deve levar a uma redução na área plantada com o cereal na safra 2026/27, safra essa que está em fase inicial de plantio.
O clima segue como variável crítica, com plantio adiantado, solos mais secos em regiões-chave e risco moderado de déficit hídrico no médio prazo.
O Brasil caminha para uma safra potencial próxima de 140 milhões de toneladas, com uma safrinha dependente do clima, especialmente entre maio e junho.
A demanda interna atinge níveis recordes, próxima de 100 milhões de toneladas, impulsionada pelo crescimento estrutural do etanol de milho e pela expansão da capacidade industrial.
Esse movimento altera o piso de preços domésticos, ainda que uma segunda safra cheia possa pressionar as cotações no curto prazo.
Soja: excesso de oferta no curto prazo, suporte estrutural no médio
China: fator neutro no curto prazo
A China apresenta estoques elevados e confortáveis, com menor urgência de compra e ritmo mais cadenciado de importações.
O aumento da área plantada com soja em 2026/27 (ao contrário do milho) e da produção potencial é acompanhado por forte crescimento da demanda, especialmente via esmagamento recorde e expansão do uso de óleo de soja para biodiesel.
A produção brasileira deve atingir cerca de 181 milhões de toneladas, com exportações potencialmente recordes.
Apesar dos fundamentos globais mais construtivos, o mercado doméstico enfrenta pressão de preços devido à elevada oferta e valorização do real, com registros abaixo de R$ 100 por saca em algumas regiões.
O mercado atual é marcado por forças opostas:
Fatores de sustentação
Fatores de pressão
Esse equilíbrio torna o mercado altamente dependente de clima, geopolítica e comportamento da demanda chinesa.
No curto prazo, a grande oferta e a demanda mais moderada pressionam os preços, especialmente no caso da soja. Por outro lado, o fortalecimento estrutural da demanda, liderado pelos biocombustíveis, limita movimentos de queda mais acentuados.
O risco climático, com destaque para a possível formação de um El Niño forte, surge como principal vetor de alta, enquanto uma normalização do cenário global poderia ampliar correções negativas.
Nesse contexto, o mercado tende a operar com elevada volatilidade e sensibilidade a fatores exógenos, mantendo um equilíbrio instável entre fundamentos de curto e médio prazos.
Confira os principais movimentos do mercado global de milho e soja que foram apresentados por Luiz Fernando G. Roque e a Thais Italiani na Live com Especialistas, realizada no último dia 23, de abril.
Veja o destaque abaixo e acesse o conteúdo completo no Hedgepoint HUB:
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